O Fixo é Mutável
10/04/2008
[Inspirado numa reflexão de Ítalo Calvino: "... quem nos dera fosse possível uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvora na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico..." ]
.
Manhã fria, céu cinzento, aqui no canteiro central da avenida o vento revira as folhas secas, volteando entre elas. Estou quase nua, desfolhando a olhos vistos. Do outro lado da pista, sobre a escada, haste nas mãos, sacola pendurada nos ombros, um daqueles fardados começa a montar mais um daqueles quebra-cabeça. É curioso contemplar, estática, as transformações aqui e ao meu redor. A cena montada aos poucos, quase num flash me pareceu um espelho, mais atenta percebo o contraste com a manhã enevoada. Colorida e ensolarada, ela vai insinuando-se aos poucos, o azul vai se espalhando… agora o céu vai dando lugar a algumas manchas esverdeadas que se misturam a tons de vermelho fogo, são flores que pontilham o verde, vibrantes como pequenas labaredas que lambem o céu.
Instantaneamente o tempo premedita outro tempo, fragmentos de um mesmo (ou outro?) espaço - presente, passado ou futuro num intervalo capturado, paralisado. O vento sopra mais forte, levando-me quase todas as folhas, agora restam poucas, parece o fim, os galhos desnudos resistem à sua fúria, guardando-se para mais além, ou logo ali para o azul e o calor expostos do outro lado. Uma outra estação, outra vida, um prenúncio, mas ainda me aguarda o frio do inverno.
Dali, raízes fixadas, diante da impossibilidade do movimento, da fuga, contraditoriamente, testemunho incontigentes transformações que se projetam regidas por ciclos sucedentes, e no entanto imutáveis, mas que trazem em si a semente da renovação que transcende qualquer circunstância.














10/04/2008 at 10:33
Querida Sarah,
Obrigada por visitar o Compartilhando as Letras, fico-lhe muito grata.
Amei seu Blog também, virei sempre aqui, aprender mais um pouco.
Beijinhos.
10/04/2008 at 10:34
Tenho encontrado muita gente boa e capaz nessa Blogosfera, isso é gratificante.
10/04/2008 at 11:04
“Dali, raízes fixadas, diante da impossibilidade do movimento, da fuga, contraditoriamente, testemunho incontigentes transformações que se projetam regidas por ciclos sucedentes, e no entanto imutáveis, mas que trazem em si a semente da renovação que transcende qualquer circunstância.”
Ah… e no fundo, no fundo não seriam todas as coisas um mesmo resumo de infinitas possibilidades?
Belo texto querida! Pena Salvador ser tão longe daqui. Mas voltimeia estou por aí. Aí almoçaremos então!
Bezzos e ótima quinta-feira pra ti!
10/04/2008 at 11:11
Sara
VC sempre forte nas palavras!!!
adoro ler vc!
Gosto de vc baiana retada!
10/04/2008 at 11:45
tudo que tem raíz é fixo, mas cresce, cresce muito.
10/04/2008 at 18:43
Sarah, como vc mesma disse, “mas que trazem em si a semente da renovação que transcende qualquer circunstância”.
Toda mudança traz consigo novas possibilidades, tudo renasce, floresce.
Somos assim, a vida é assim.
Torço para que os ciclos te surjam como trancedência sempre!
Beijos, Mel
10/04/2008 at 18:56
Sara, ainda bem que nosso mundo não tem apenas lulas e ziraldos, ainda bem. brigadim, mendes.
11/04/2008 at 12:19
E ao mesmo tempo que desnuda, faz a folha voar. Encontrar caminhos incertos e renascer.
Adorei o blog.
Bjo,
Lucas.
12/04/2008 at 11:42
‘logo ali para o azul ‘ tem todas as cores lindas que as suas letras têm…’logo ali para o azul ‘ até de olhos fechados é colorido!
Bjs e bom fds
13/04/2008 at 11:56
Sara, isso tudo me lembrou as visitas de final de semana ao meu vô, no interior da Bahia, em Alagoinhas.
Cheguei a sentir o cheiro do passado.
Um beijo.
13/04/2008 at 18:36
Morro de medo de virar uma arvore ….. e criar raízes …..
bjs