Arquivo de 29/04/2006

Aqui o dia amanheceu cinzento e frio. Eu melancólica. Isto me fez lembrar um trecho das Belas Imagens – transcrito a seguir. Hoje não estou nenhuma Beauvoir, auto-suficiente e forte. Estou mais para Fragilidade ….

“Ela se afasta, os ombros um pouco curvados. Laurence sai para o terraço que domina o vale. Ao longe, a brancura do Sacré-Coeur, as ardósias dos telhados de Paris brilham debaixo do céu de um azul intenso. É um daqueles dias em que a alegria da primavera desponta debaixo da friagem de dezembro. Pássaros cantam nas árvores nuas. Na auto-estrada, lá embaixo, carros deslizam, reluzentes. Laurence fica imóvel; o tempo de repente parou. Por trás desta paisagem orquestrada, com as suas estradas, seus conjuntos, seus loteamentos, os carros apressados, algo transparece, cujo encontro a tal ponto comovente a faz esquecer as preocupações, as intrigas, tudo: ela não é mais senão uma espera sem começo nem fim. O pássaro canta, invisível, anunciando o longínquo renascer. Uma mancha cor-de-rosa arrasta-se no horizonte e Laurence permanece por um momento paralisada por uma misteriosa emoção.”
[AS BELAS IMAGENS – Simone de Beauvoir]

Queria ter o dom de arrancar de dentro de mim estes sentimentos que por vezes me dilaceram. Queria ser o deus de mim e dizer: faça-se o esquecimento! Isto só no último dia da criação, para não sofrer a tentação de recordar. Queria ter a borracha mágica que apaga as dores, pressionar a tecla delete do PC das minhas mágoas … Queria possuir o “brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Aquelas difíceis e dolorosas, aquelas que demoram em despedir-se, auxiliadas pelo tempo que se arrasta pesadamente.

(Sarah >abril/2006)

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