A cor e a DOR

Publicado: 25/06/2006 em conto
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foto: Michael H. Sinn

Ao encontrar seu homem com outra, perdeu a noção das coisas. Cega de raiva, como uma selvagem quebrou tudo à sua volta, saindo em disparada, correndo pela rua, desgovernada. Lágrimas escorriam daqueles olhos azuis e desciam pela pele branca; a face de um anjo desfigurada pela dor. A raiva deixava trêmulas as suas mãos e o ciúme a tornava temporariamente cega e tremendamente doída.

Corria, apenas corria, e ainda ofegante e atônita percebeu que estava diante de um cemitério, ao lado, alguém vendia flores, mas a alegria lhe havia sido roubada. Do outro lado da rua um luminoso chamou sua atenção, suas luzes e o silêncio puxaram-na para dentro. Chorava ainda, soluçando, olhos vermelhos, borrados, cabelos desgrenhados. Uma mocinha vestida de vermelho, veio atendê-la e penalizada tentava consolá-la. Olhava aturdida para aquela mancha vermelha que a servia, parada à sua frente, mas não lhe escutava, apenas ouvia seus próprios soluços e chorava, chorava, chorava … Queria comer, comer, comer, depois sumir e dormir por incontáveis dias e noites. E depois? Respostas não lhe ocorriam.

Enquanto comia, observou ao redor e percebeu a garota ainda de pé ao seu lado, falando, falando … Sim, falava sem parar sobre alguém que havia morrido. Percebeu então que a garçonete, a consolava como se achasse que ela houvesse saído daquele sepultamento que acontecia do outro lado da rua. Seus olhos caminharam lentamente em direção ao cemitério, enquanto ela pensava em como felizes seriam seus dias se ela pudesse encerrar todo amor e dor que sentia dentro daquele caixão e abafá-lo sob a terra daquela sepultura. E ela sorriu.
A garçonete confusa, via despontar daquele rosto sofrido, um misto de cinismo e prazer. Ela então, levantou-se, pagou a conta enquanto apanhava a faca que repousava sobre o prato, olhou para a mocinha e seu vestido Vermelho, buscando inspiração e saiu.

 

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(Sarah K >jun/2006)

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comentários
  1. Fabi disse:

    Imagem forte, hã!? rs
    gostei
    vc escreve mt bém.
    me dá umas aulinhas?! rsrs
    bjoca.

  2. *£ua* disse:

    Nossa!!! Dá pra escrever um livro hein…
    Beijo grande!!!!

    Lua

  3. rose disse:

    Ninguém vale uma gota de sangue minha…

    Ninguém vale um destempero desse porte não é mesmo?

    A música casou com o texto perfeitamente… é linda e desesperada.

    Beijos Sareiah.

  4. Fê_Notável disse:

    Oi Sarah!
    Nossa! Pq vc não escreve um livro?! Sabia que você escrevia bem, mas este texto definitivamente me conquistou!!! Parabéns!!! …
    Mudando um tantinho de assunto, fiz um outro blog, onde estou me aventurando na prosa (mas o Escritos Continhua firme e forte!!)… dá uma passadinha lá depois!Não tem textos tão bons quanto os seus… mas vou escrevendo, devagar e sempre!O End é: http://www.algumasobservacoes.zip.net
    Beijinhos pra ti! E boa semana!

  5. Sarah disse:

    ROSE, concordo plenamente com vc … Sou mais eu, evidentemente!
    Pois é, a música foi escolhida justamente pensando em dar mais dramaticidade à cena.
    bjs!

    FÊ, FABI e LUA, muito obrigado queridas, vcs sempre gentis … rs, quem me dera!
    FÊ, vou te olhar também, viu? .. bjs!

  6. Ela disse:

    O que é qq coisa diante da morte…e qtas vezes queremos sepultar sentimentos e coisas q corroema alma e fazem tudo doer dentro da gente?Morte tem mais a ver com vida do que imaginamos as vezes…
    Um grande beijo Sarah e uma linda semana…

  7. camilinha_goes disse:

    Muito legal!!!

  8. Dira disse:

    Sara, vi o seu link divulgado pelo Eraldo. Vim conferir. Putz. Mas que texto do caramba. Saiba que já vivi algo assim. N matei os ditos, mas acabei no hospital com a pressão nas alturas. Fantástico o seu texto. Dá pra sentir q alguns sentimentos só nos serviriam se estivessem sepultados. Ao menos serviria o endereço para onde mandar flores nos aniversários.

  9. Banda - Inpulse disse:

    —Antes demais NÃO FUI EU!!!!—-
    Olá aqui estou de volta, fiquei surpreso com tal texto, está muito bem conseguido.
    Consegues dar “cor” em conjunção com o decorrer da história.
    E para finalizar confrontas o faco de uma traíção com uma morte a qual é usada como pretexto de levar mais uma dor.
    Um abraço
    Dante

    PS:Eu disse que voltava……..Ah Não consigo ouvir a música, apesar de aconhecer.

  10. Lidiane disse:

    Bem Rodriguiano.
    A vida como ela é…

    Beijos.

  11. Marco Bueno disse:

    Nossa, muito bom o texto.. deixa um pouco de misterio no final.. gostei muito! Queria saber como faz para por musica no blog!? ate +

  12. Künzang Yeshe disse:

    O caçador na floresta do desespero às vezes se esquece que o seu fiel cão essencialmente está muito mais próximo do lobo perseguido e acuado do que do seu próprio dono. E é nesses raros momentos que ocorre o resgate da alma daquele que está entre o a sua Natureza e suas ideologias, entre ID e Superego.

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