O outono de cada um

Publicado: 02/06/2007 em comportamento

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil

( … )

Que tenho sido grotesco, mesquinho submisso e arrogante

Que tenho sofrido enxovalhos e calado

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda

( … )

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo

Toda gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera oivir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

( … )”

.

Tenho me sentido uma árvore no outono, desfolhada, aparentemente estéril, desnuda, descolorida… Já o solo à minha volta, ao contrário, é especialmente belo, carregado de uma multiplicidade estonteante de cores. Esta metáfora me veio à cabeça estes dias, ao pensar em perfeição.

O homem vive em busca da perfeição. (?) Pode haver ato mais doloroso e prazeroso? É algo tão paradoxal esta busca do impossível.

Gosto da imperfeição, como uma parte do todo que somos, perdê-la implicaria em não termos mais porque buscarmos a superação.

Ser imperfeito é a razão, o motivo, a justificativa. Ser imperfeito é bom, nos faz sentir gente, pois gente é o que somos e não deuses como tolamente pretendemos. Talvez sejamos, como aqueles do Olimpo, cheios de imperfeições, mas de qualquer forma não somos imortais, nem temos superpoderes. Somos gulosos, egoístas, agressivos, invejosos, presunçosos, apegados, indiferentes, pudicos, críticos, avarentos, hipócritas, exigentes, mesquinhos, arrogantes, covardes, ridículos, limitados, soberbos…

Sentiu-se ofendido? Perdão.

Jura que não se viu em nenhuma destas palavras? Desculpem se não creio numa negativa, assim como PESSOA no poema transcrito, não acredito em perfeição.

.

(Sarah K > junho/2007)

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comentários
  1. vanda disse:

    O Mundo, as pessoas são feitas de pequenos detalhes…por vezes é a imperfeição que marca a diferença!

    beijinhos Sara
    e bom fim de semana

  2. Fê_Notável disse:

    Oi Sarah!

    O que é a perfeição, se não um mero conjunto formado por imperfeições?!

    Beijos

  3. Anonymous disse:

    Sarah

    Incrível como pensamos parecido.
    Bela semana!

    [ Quem canta “fruta VERMELHA”?
    RESPONDE,TÁ?

    Elisabete cunha

  4. ---#--- disse:

    Eu acho a perfeição um SACO!!<br/>Tenho um poema que fala exatamente sobre isso..<br/>http://prosaicospoemas.blogspot.com/2007/05/olhe.html<br/><br/>Bjo.

  5. Ricardo Rayol disse:

    Umas verdades bem ditas numa sexta feira tem seu valor.

  6. Ariane disse:

    …em nossa imperfeição, vislumbramos a perfeição da natureza que faz cair folhas ao vento, e depois do vento gélido faz nascer flores…

    viva sua estação, curta seu outono com toda intensidade, pois cada momento é único ,e qualquer hora dessas voltará a ser primavera!

    beijos

  7. grace olsson disse:

    Te encontrei na Denise, onde tenho meu blog linkado…e vim te visitar.Eu sou tão imperfeita e adoro cada imperfeição que vive em mim.BFsemana.E dias felizes…

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