A Vida, o Amor e o Tempo

Publicado: 19/08/2007 em cinema, comportamento, reflexões

Lleva tiempo llegar a ser jovem”  (Pablo Picasso) 

Ela é uma mulher extravagante, otimista e de grande senso de humor que sabe que vai morrer em pouco tempo… Ele é saudável, mas vive como um doente e não sabe que ela morrerá em breve. A conversa a seguir se desenrola num restaurante, ao qual ele vai por muita insistência dela e onde ela se declara apaixonada de uma forma muito original.

O garçon serve a comida e ele olha o prato, receoso.

– O que foi? – ela pergunta

– É puro ácido úrico. Não sei como vou me sentir amanhã.

– Vai se sentir maravilhoso com a lembrança desta noite inesquecível – ela diz com seu jeito encantador, que geralmente o deixa perturbado.

Ele em silêncio, e ela diz: 

 – Esse ácido úrico está delicioso (ele ainda em silêncio)! Eu te amo (mais silêncio ainda). O amor também faz mal para este seu corpo frágil e enfermo?

– Elsa, o que somos? – ele pergunta confuso.

– Somos uma mulher e um homem discutindo os aspectos ruins de um bife. – ela fala provocando-o.

– Não, quero dizer … Não a isto, a nós.  Me sinto estranho.

– Estranho bem ou estranho mal?

– Estranho.

– Bem, eu quero saber, porque isto é muito importante para mim Alfredo. Não quero sofrer, coisas estranhas estão acontecendo.

– Fala como se fosse uma adolescente!

– Mas eu sou uma adolescente.

– Sim, você é uma menininha no corpo de uma mulher de idade.

– Uma mulher imatura?

– Não, és uma mulher adorável!

– Então é estranho bom.

Ele acena que sim, eles riem.

– Você acha que podemos chegar a alguma coisa, nós dois, não num futuro muito distante?

Ele enrubesce com a pergunta.

– Não acredito! Ficou vermelho! Tem 78 anos e ficou vermelho! Como não me apaixonar por você!?  Estou falando demais. – Ele ri solto.

O tempo passa e logo a sobremesa vem.  Ele olha para o prato como se não lhe agradasse.

– O que foi? – Ela pergunta.

– É uma montanha de colesterol!

– Enfie o dedo e lamba droga! – Ela diz fazendo pouco caso dele.

– É uma falta de educação.

– Sabe de uma coisa? Você não tem medo de morrer, você tem medo de viver! – diz ela já sem paciência.

– Você parece um livro de auto-ajuda. Você não tem medo da morte?

– Não. Vamos esclarecer uma questão. Você é um homem saudável, com todas as dores da idade, mas isto não é grave. O dia que realmente estiver doente de verdade vai querer aproveitar isso tudo.

– Fala com se isso estivesse acontecendo com você!

Ela desconversa e diz que aconteceu com o marido falecido.

– Na verdade eu sou um pouco hipocondríaco – Ele confessa.

– Não, nem um pouco, você não é nem um pouco hipocondríaco. Vou lhe dizer na verdade o que você é, como chamamos isto lá na minha terra. Você é un cagon! Un cagon! Ninguém morre por comer a melhor sobremesa de Madrid! O dedo, o dedo!! – Ela diz apontando para ele e o convidando a saborear a sobremesa com os dedos. Eles riem juntos. Ele obedece e degusta a sobremesa.

– Muito bem! À vida!! – ela diz e terminam o jantar com um brinde.

– Gostaria de ter lhe conhecido antes – ele fala emocionado.

– Pare de choramingar, nós nos conhecemos e fim.

elsaefred2.jpg

Quantas oportunidades perdemos na vida, quantos momentos simples e maravilhosos deixamos de viver por excesso de precaução, por medos bobos ou realmente por falta de coragem de arriscar?? A vida é curta e deve ser vivida intensamente e de preferência sem muitos senões. Essa é a estória de Elsa e Fred,  muito mais que um romance, uma lição filosófica de vida.

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comentários
  1. elisabetecunha disse:

    Obrigada Sarah, precisava ler isso hoje!

    amo vir aqui também!!

    😉

  2. oi Sara! voltei como prometido!

    dia desses estava falando com um amigo: sempre que um cavalo ensilhado passar eu vou tentar nunca deixar passar sem monta-lo. monto mesmo, sabe? e se cair levanto.

    dos males o menor. se for um potro manso vai ser um agradável passeio. se for um garanhão indomével.. bem rs rs… me agarro à cela do jeito que der!

    esses cavalos podem ser “quem ou o que quer que seja”. se permitir é viver.

    lindo post!

    🙂

  3. mendes disse:

    Sara, legal o post.

    É verdade, ‘as vezes pensamos muito quando devíamos simplesmente viver: medo? comodismo? fazendo verdade aquela expressão: ô vidinha mais ou menos, né não? dou um tchau com outra expressão: a vida é bela, nós é que estraga ela… bjs,

  4. Rob disse:

    Este filme é genial, né? Comovente (pena que você entrega o final… rs), delicado, tocante, perturbador.

  5. Lu disse:

    Eu vi esse filme no fim de semana e adorei…é perfeito!!! Muita gente tem esse mesmo medo, de VIVER, de sentir, de sonhar, permitir-se…eu sempre invisto realmente eu tudo o que quero, mesmo sem saber pra onde vai me levar!!!! Esse filme é maravilhoso, eu amei!!!
    Bjos, Sara!

  6. G. disse:

    Oi, menina! rs
    Releia o que escrevi! Não deixe a emoção de embaralhar um texto rsrsrs! As mulheres são infinitamente mais cognitivas que os homens! rs
    Beijo

  7. Sall disse:

    Olá, Sarah!
    Muito bom o trecho recortado do filme. Ainda não assisti, mas já está na minha lista de prioridades, às vezes sou Elsa, mas também sou muito Fred…rs.
    Obrigado pelas visitas no meu singelo blog…rs.
    Bj e tudo de bom!
    Sall

  8. Ricardo Rayol disse:

    Um dos diálogos mais interessantes que leio em tempos.

  9. Claudinha disse:

    Estou sempre precisando ler algo assim…
    Para me tirar de uma letargia insistente..
    Obrigada..
    Bjo gde.

  10. Lidiane disse:

    PRECISO ver esse filme.
    Uma amiga minha recomendou muito e agora você.
    PRECISO!

    Beijos.

  11. Edson Marques disse:

    Belíssimo texto!

    Adorei o filme, quando o vi, faz tempo.

    Se você não encontrar razões para ser jovem, invente-as.

    Abraços, flores, estrelas..

  12. elisabetecunha disse:

    saudade!
    🙂

  13. Ah, eu quero ver. Parece ser muito bom.

  14. Mai* disse:

    Eu a-m-o esse filme, Sarita!
    Se você gostou procura um diretor Silvio Soldini.
    Ele tem filmes nessa mesma linha, como Pão e tulipas.
    Um cheiro doce!

  15. Marcelo disse:

    Nos dão uma ideia de futuro totalmente errada…então quase tudo na vida projetamos para o futuro e nisso o tempo passa e muita coisa boa idem…se pararmos para pensar nos dias em que fomos mais felizes, geralmente, fizemos algo que não estava estabelecido, até deixamos de pagar algo para comprar outro algo que deu na veneta momentanea a vida é presente e realidade inteligente e consciente!!!

    bjs

  16. elisabetecunha disse:

    beijo

  17. Vampira Olímpia disse:

    De fato, o medo freia muitos acontecimentos que podem ser tão positivos, não?
    Beijos, Saroca.

  18. Mel disse:

    Sarah, eu já vi esse filme e adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Muito bom vc tê-lo trazido para que os demais possam conhecê-lo! Vale a pena!

    Beijo

  19. elisabetecunha disse:

    Cadê vc?
    😦

  20. vagner disse:

    Adorei o texto, uma ideia otima.

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