… O mundo não mudou

Publicado: 29/11/2007 em conto
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Suas mãos sujas seguravam o binóculo enquanto a procurava do outro lado do vale. Eram tantos os contrastes, tantas diferenças, na verdade, muito mais que aquele vale os separava.

A primeira vez que a vira, era um vulto debruçado sobre a janela, com os olhos perdidos, parecia sonhar. Tinha sido semanas antes, muito antes do assalto de hoje. Agora com o binóculo podia vê-la em detalhes. Mas antes, apenas o vislumbre do seu vulto já havia lhe roubado a atenção, o sono, o sossego, os anseios, os pensamentos, os planos. Logo ele que vivia de roubar os outros. Depois dela, tudo havia mudado, este foi o último assalto, apenas para ter o binóculo, ele se prometeu. Agora fazia planos, sua vida adquirira um sentido, um brilho, um tom de esperança.

Pelo binóculo ele a tinha bem perto, quase podia tocá-la. Seus olhos pretos, seu rosto sério, seus cabelos fartos de cachos que desciam deslizando pelo pescoço esguio e delicado. Sonhava com ela todas as noites, imaginava sua voz e seu toque. Acordava suado, agitado. Várias vezes ensaiou palavras e foi à porta de seu prédio, mas de lá voltava cabisbaixo, vencido pela insegurança e pelo medo da rejeição. Outras vezes, sonhava com seu cheiro, seu gosto, inventava-lhe um nome e ganhava um sorriso. Mas curioso, pensava ele, vista pelo binóculo ela pouco sorria, era tão séria e muitas vezes chorava. Nestes momentos ele se transportava e do seu lado a protegia, abraçando-a ternamente.

Os dias passavam na esperança do encontro.

Numa tarde, chegando em casa, ele era pura satisfação. Conseguira um trabalho como moto-boy. Como sempre se dirigiu para o alto da laje, binóculo nas mãos, enquanto isso ensaiava as palavras que brevemente diria a ela. Estava decidido, iria mais uma vez esperá-la defronte do seu prédio, e quando ela saísse, se encheria de coragem para aproximar-se. Enquanto pensava, trouxe o binóculo aos olhos para tê-la, desta forma, pelo menos por enquanto mais perto.

Parecia agitada, ia de um lado a outro do quarto repetidamente e chorava. Ele procurou seus olhos, estavam vermelhos, carregados de angústia e suas mãos trêmulas deslizavam freneticamente sobre os cabelos. Encostou-se no vidro da janela, colocou a cabeça entre as mãos. Ele quis sair ao seu encontro, mas inesperadamente abriu a janela e sentou-se sobre o peitoril, estava agitada, olhava para o nada e seus olhos transmitiam uma tristeza absoluta. Quis abraçá-la, mas diante da impossibilidade, gritou e acenou-lhe. Ela não o enxergava, ele jamais existira. Gritou mais uma vez, ela então olhou à frente e lhe sorriu abrindo os braços, ele tentou devolver o sorriso, mas ela não mais estava lá.

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comentários
  1. Anonymous disse:

    Que lindo Sara, que triste… me lembra a paixão platônica do filme O Homem que Copiava, mas lá, no filme, teve final feliz…

  2. Segunda Pele disse:

    Belo texto. Adorei!!

    Beijos, ótima quarta! =)

  3. poemusicas disse:

    Texto bonito. Eu identifiquei nele uma maturidade que pode já te identificar com uma escritoria. A questão é só se dedicar, procurar algo que te dê margens a se alongar mais, explorar mais dos personagens

    Um beijo

    Naeno

  4. Bill disse:

    É… assim… Como dizer… Que foi isso ó.Ò

    Lindamente triste… Perfeitamente escrito e com cada cena me seu lugar fazendo correr levemente…

    Simplesmente perfeito… Adorei.

    Parabéns pela bela escrita e obrigado de coração pelas palavras no RT =]

    :********

  5. Naeno disse:

    Muito bonito. Bem elaborado, um conto perfeito.
    Vi muita ternura, muita busca, muito amor.

    Um beijo,

    Naeno

  6. Bill disse:

    Upz!!!

    Não esquecendo claro, que a música que colocou aqui no seu blog é simplesmente fabulosa =]
    Deixa babanco =]~
    Andante roxxx =]

    :****

  7. Mel disse:

    Saber expressar o que sentimos com palavras é uma arte e vc tem o dom!
    🙂 Lindo texto!
    Quanto às janelas, tbm tenho uma queda, não sei ainda o motivo, adoro!
    🙂
    bjo

  8. Papoila disse:

    Lindíssimo este texto Sara! Lindíssimo e triste mas pleno de sentimentos. Obrigada pela visita ao campo.
    Beijo

  9. Lidiane disse:

    Tão triste…
    Todo mundo já se sentiu um pouco assim, né?
    😦

  10. Marcelo disse:

    Olá voei do blog do Naeno prá cá sem sair daqui mesmo, até que enfim eu encontrei outros bloggers daqui…tô em sobressalto, volto com calma para ler tudo…

    Beijos
    marcelo

  11. Zeca Pestana disse:

    A vida sempre passa… as vezes pela janela…
    Adorei te conhecer.
    Paz!

  12. Barbara Virginia Lucas - Babi - disse:

    interrompemos extraordinariamente as férias da Babi para visitar amigos da blogosfera e deixar um beijo bem gostoso!
    :*
    agora… segue o ócio…
    sabe, to amando minhas férias, até artesanato andei fazendo… vem ver…

  13. Ricardo Rayol disse:

    Que final… triste mas forte.

  14. Marcelo _SSA_Ba disse:

    Sarah que bacana, adorei o texto e o final surpreendente!

    Bjs

  15. Sr. Eulálio disse:

    Bravíssimo, menina de trança do pescoço esguio e delicado…

    Um beijo do Eulálio.

  16. fantasma disse:

    o q dizer…

  17. Marcelo disse:

    Sara KKKKKKK, lindo conto..inda bemque eu o leio hj…suave, forte ensurdecedor…adoro o amor e/ou a atração entre os diferentes o motoboy e a…lindo, portanto, então…luxo e luzes!!! – faça um video de 5 min e concorra no festival da DIMAS!!!

  18. Ai…

    sem palavras.
    Triste, forte, profundo, lindo….

    meu coração tá apertado aqui.
    ótim otexto.

    beijão moça.
    😉

  19. elisabetecunha disse:

    Porisso que venho aqui!!!

    Tem contéudo!

    linda!
    🙂

  20. Lidiane disse:

    Querida.
    Ela, como eu… não está mais lá.
    Fase assim mesmo.

    Beijo.

  21. Claudia disse:

    Triste por enquanto, pontualmente…
    Amanhã é outro dia.. Quem sabe ela repara nesse amor, nessa dedicação. Quem sabe?
    Bjks…

  22. Claudia disse:

    Sobre o telefone do abrigo…
    Infelizmente é verdade, Sarah.
    E o motivo não poderia ser pior… Falta de grana… Triste demais, né?
    Bjo.

  23. Bill disse:

    (=

    Reli… e continuo adorando x)

    Beijo dona moça

    :*

  24. Ricardo Rayol disse:

    Gostei do distanciamento, do platônico, da angustia…

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