Você tem sede de que?

Publicado: 28/04/2009 em comportamento, reflexões
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“Os homens aparentam a vida que levam, talvez todos nós aparentemos. Seus rostos e corpos confirmam o trabalho pesado. Todos são esguios, sem um quilinho de gordura a mais. Parecem curtidos pelo sol, de um bronzeado tão profundo, que provavelmente nunca fiquem páldos no inverno. Suas roupas de trabalho são práticas, grosseiras. Eles não se arrumam, apenas se vestem. Portam também uma dignidade natural. Sem dúvida, alguns são espertalhões, insensíveis, cruéis, mas parecem totalmente presentes, abertos, vivos. Faltam dentes a alguns, mas eles riem à vontade, sem constrangimento. Um menino retardado perambula entre eles, sem que cuidem dele e sem que o ignorem.” (sobre as pessoas do campo – no livro SOB O SOL DA TOSCANA)

tarsila-operarios

O trecho fala de algo tão básico na vida e ao mesmo tempo tão fora de uso: naturalidade e simplicidade. O tema me veio à cabeça outro dia no trabalho quando falávamos de Susan Boyle. Depois de assistirmos o vídeo onde ela se apresentava no “Britains Got Talent” e era ridicularizada pelos jurados e público, aparentemente por ser gorda, feia, ter apenas 46 anos e aparentar quase 60, nunca ter casado, não ter namorado e mesmo assim, sorrindo sempre, dizendo-se feliz. O tom de deboche continuou até ela começar a cantar; a voz era sublime, emocionante. De repente todos calaram, pasmos e extasiados. Uma coisa não combinava com a outra. Quem é feio está fadado ao fracasso, quem é feio não pode ser feliz; parecia ser esta a confusa indignação de milhares de pessoas diante da imagem e da voz de Susan Boyle.

Hoje em dia (leia-se final do sec. XX e início deste), muito mais que em outros tempos, estar fora dos padrões ditados pela sociedade é a pior das pragas, principalmente os de beleza e riqueza. Porque naturalidade e simplicidade adquiriram status de errado? Porque vivemos numa louca corrida atrás de uma suposta felicidade que se traduz sempre na posse material e na busca de uma aparência perfeita e artificial?

Uma colega do trabalho ao terminar de ver o vídeo da Susan disse: “nossa! e ela se diz feliz. mas com tão pouco…?” 
Qual a medida da felicidade? Muitos de nós crêem ser dinheiro e beleza.
Beleza é fugaz, inevitavelmente ligada à juventude que um dia nos abandonará. A posse material gera mais insatisfação do que prazer, a cada aquisição nos sentimos mais vazios e desejamos consumir mais. O resultado disto tudo é a produção de mais e mais infelicidade à medida que perseguimos seu oposto. Nesta corrida, esquecemos o cultivo diário de nossa espiritualidade, de cuidar do conteúdo da nossa “embalagem”; esquecemos que paz interior não se compra nem está vinculada a uma bela aparência. Vocês podem me achar piegas e previsível, mas a verdade é que relegamos valores simples e tão intrínsecos à nossa natureza em nome de uma corrida vazia e desenfreada rumo à superficialidade.

Resultado?
Uma legião de pessoas “bonitas”, “ricas” e terrivelmente insatisfeitas. Não aquela insatisfação saudável que nos leva ao crescimento, mas aquela doentia e cega que nos tolhe a capacidade de enxergar além das aparências.

( imagem: Operários – Tarsila do Amaral )

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comentários
  1. Srta. Rosa disse:

    Infelizmente, queridona, tudo verdade. Tudo verdade. O mundo está perdido, estamos virando nós, coisa pior que bicho.
    É torcer pra coisa melhorar.

    Besos,

  2. mariposo-L disse:

    Sarita, finalmente voltou para a Luz keroline e saiu um pouco do “tuit”, good…
    Vamos lá então, em uma analise de caras e bocas daquele vídeo você percebe claramente que tudo foi muito bem ensaido, jurado e monstro da Tasmania, tudo combinado, tudo falso naquilo cara dos jurados e da esposa do Frankstein… Acho que tudo aquilo foi e está sendo uma marketiado, a sociedade está em crise por todos os lados .. a igreja e milagres do além totalmente desacreditado .. então se ele conseguiu .. você também consegue …afinal pior que ela o que será ??? A Zezé Macedo ??? Tadinha não teve a mesma sorte …
    Já padrões de beleza, são marketiados pelas empresas ligadas a área de beleza, fabricas de shampoo,cremes.. etc etc ..e não podemos esquecer a ind de (vestimentos)roupas e calçados e acessórios. Todo esse povo precisa lucrar então mkt da beleza passando a idéia que se vc não está adequado a isso vc é escluido … tadinho tem agente que acredito nisso…. principalmente do sexo feminino …

    Mas ainda acho que o fenômeno Suzam B. é uma grande jogada … só o tempo vai mostar …

    bejitosssssssss

  3. Amèlie disse:

    Amore, vim te ver!

    E sim, o mundo está absurdamente ATORMENTADO.

    Beijos

  4. livia disse:

    OLÁ!PERFEITA A SUA COLOCAÇAO E ANALISE.o MUNDO ESTÁ LOUCO DE SOLIDÃO,DE CRITERIOS DE FELICIDADE QUE SÓ PRODUZ INFELIZES.qUEBRAR TAIS PADROES REQUER INTELIGENCIA,CONHECIMENTO,CORAGEM E..BOM HUMOR.sUSAN bOYLE PROVOU QUE SIM.aBRAÇO.

  5. Concordo, Sarah e, sei lá, parece que quanto mais avançamos mais infelizes ficamos…
    Um beijão.

  6. Mel disse:

    Sarah, felizes aqueles que encontram felicidade na simplicidade! Faço parte desse grupo, sabia! E o sorriso rola solto!
    🙂 Beijos

  7. notobviouscinema disse:

    Alguém tem que fazer algo quando a audiência está caindo, né? A encenação perfeita de Susan Boyle pegou todos os preconceitos do pessoal que acha que beleza é um valor, que “elegância” (=moda ditada por uns poucos) importa, e deu uma merecida porrada.

    Mas tenho certeza de que aquelas pessoas na plateia, em vez de estarem lambendo as feridas por terem sido ridicularizadas, devem estar contando pros amigos que viram a Susan B. ao vivo. Viraram celebridades…

  8. Jess disse:

    Adoro esse blog, segunda vez que o visito, e já tenho um presente esperando por vc.
    beijos

  9. Sarah K disse:

    Gente,
    prá quem disse que foi tudo armação, eu prefiro acreditar que realmente existe uma mulher chamada Susan Boyle e que ela foi normalmente participar do concurso e causou esta surpresa em todos e ainda por cima fez o mundo inteiro cair em questionamentos sobre belez, felicidade, dinheiro e outros tantos valores cultuados pela nossa sociedade.

    Lembra o que ela disse qdo perguntaram como ela conseguiu se concentrar e cantar tão bem mesmo percebendo o tom de zombaria do juri e as expressões de desdém da platéia??
    ELA DISSE: “A gente tem de se levar a sério”. Pois é.

    Acho que de tudo isto ficou muita reflexão…
    Todo mundo parou prá pensar, nem que fosse um pouco em como tem levado a vida, o que é importante realmente na vida e outras coisitas relacionadas.

    😉

  10. Marcelo disse:

    Sra. Sara K, que massa a sua constatação…tambem prefiro a simplicidade, e cuido muito ou melhor cuido do meu lado espiritual e asseguro lhe faz muito bem, rejuvenece, cresce, respeita, aceita, espera, não cobra, perdoa, desculpa…tenho colegas com 21 anos que se acham velhas e namoram qualquer uma pessoa apenas para não estarem sozinhas, duram uns dias, um mes…sofrem, sofrem e começam tudo outra vez!

    bjs

  11. Dani(ela) disse:

    é isso mesmo Sarah. mesmo que ela seja uma infeliz jogada de mkt, seu texto contunua verdadeiro.

    bjim.

  12. Mariposo-L disse:

    Sarita, você esta muito ausente desde espaço ..buuuuaaaa
    Mas estou aqui porque vi a reportagem do fantástico levantando a hipotese de tudo aquilo ter sido uma armação mesmo 🙂

    Agora sim … sito pena dela ….parece coisa de filme de “circo dos horrores ” a mídia é muito podre …

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