Mary & Max

Publicado: 17/05/2010 em cinema, comportamento, reflexões
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Um dos melhores filmes que assisti esse ano, e olha que já vi muitos.
Estética e tecnologicamente desafiador, não espere um desenho bonitinho e convencional, nem efeitos especiais mirabolantes. Nesses tempos de 3D, se você consegue se libertar por algumas horas dos padrões estéticos dominantes e permitir se aventurar na “feiura” [eu gostei da estética, além de tudo achei necessária à consistência da história] proposital, na beleza implícita e delicada, na narração inteligente fazendo dupla com os enquadramentos sutis, na trilha sonora envolvente e irretocável, não sentirá falta de nenhum recurso mais moderno, afinal os recursos aqui são outros, eles contam principalmente com sua sensibilidade e perspicácia. Prenda-se aos detalhes!

O filme conta a estória da amizade entre duas criaturas separadas pela distância e idade, mas unidas pela solidão e sensibilidade, pelo gosto por chocolate, pela mesma série de TV, por cores sem alegria e pela ausência do sorriso. Uma crítica mordaz e criativa, ao mesmo tempo bem humorada e triste sobre a “frieza” das relações interpessoais, as fobias, os vícios e incongruências da sociedade contemporânea. Sem esquecer em alguns momentos de dar umas cutucadas nas questões ambientais.

Ela é uma garotinha com olhos cor de lama, um sinal de nascença cor de cocô, que vive na Austrália e adora leite condensado. Solitária, pobre, filha de uma mãe alcoólatra e de um pai mecanizado e apagado, tem como únicos companheiros os brinquedos que ela mesma faz com restos de lixo, um vizinho fóbico e um galo que escapou do matadouro. Apesar dos pesares, sua aura ingênua, própria das crianças isentas da maldade, nos encanta; seu caráter nato, indo contra todo o exemplo familiar, nos surpreende. Mary, determinada e otimista quase sempre, é apaixonada pelo seu vizinho grego e persiste na busca da amizade palpável e verdadeira.

Ele é um homem de olhos pretos, um “aspie” que odeia quem joga bituca de cigarro no chão, anti-social e avesso à civilização cujos hábitos são danosos e extremamente contraditórios segundo seu ponto de vista. Talvez pense assim porque vive em Nova Iorque, uma cidade, a seus olhos, tremendamente desumana e caótica. Consequentemente tornou-se solitário e incapaz de cultivar amizades, pelo menos a curta distância. Filho de mãe violenta e pai suicida, judeu, virgem, chocólatra e obeso, seu círculo de relacionamento se resume a uma vizinha cega que ocasionalmente cuida dele e um amigo invisível. Max sofre de síndrome de Asperger e vai ao psiquiatra regularmente, que para ele é quase como um pai.

A amizade dos dois se desenvolve à distância e nessa busca pelo afeto, apesar de suas limitações, conseguem ajudar-se mutuamente, como se emprestassem seu modo de ver o mundo um ao outro. Mesmo tendo horizontes limitados e problemas sérios, conseguem ampliar suas perspectivas, através da influência positiva e mútua que exercem no crescimento pessoal de cada um. Essa interação surpreende, causa  espanto, alegria, mas também dor, e nesse detalhe se esconde a beleza do filme. A constatação de que a imperfeição é natural, o quanto é tola a mania de buscarmos a perfeição no outro, nas coisas e em nós mesmos, e como isto pode nos fazer infelizes e interferir na nossa evolução.

É uma história sobre aceitação, sobre o verdadeiro sentido de afinidade e parentesco. Sobre estar perto, mesmo estando a quilômetros de distância. Um filme baseado em fatos reais que nos ensina sobre amizade e o sentido da vida: uma longa calçada a ser percorrida na maioria das vezes sozinho, para uns muito bonita, limpa, acessível, pitoresca e sem obstáculos, para outros, nem tanto. Mas isso não aumenta nem diminui ninguém.

………………………………………………………………………………

Este filme já ganhou pelo menos sete prêmios. Entre eles, o Urso de Cristal de Menção Honrosa ao Cinema Juvenil Generation 14+ no Festival de Berlim, o Grande Prêmio do Festival de Animação de Stuttgart, o de melhor roteiro no Prêmio Queensland Premier’s Literary e o Grand Cristal no Festival de Animação de Annecy.
Não perca, afinal existe vida inteligente além da Disney e Pixar!!
Visitem o site do filme … É um arraso!

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comentários
  1. […] This post was mentioned on Twitter by Sarah K. Sarah K said: Mary & Max: Um dos melhores filmes que assisti esse ano, e olha que já vi muitos. Estética e tecnologicamente desa… http://bit.ly/9T2CZ6 […]

  2. Lidiane disse:

    Anotadíssimo, Sara querida.
    Vou procurar para ver este fim de semana.
    Fiquei super com vontade de ver.

    Beijos.

  3. Adorei a dica Sara ,vou conferir!
    E adorei saber que vc n me esqueceu,amei sua visita!

  4. vander disse:

    Eu costumo aprovar 100% um filme qdo eu sinto vontade de ter feito.E essa animação eu teria o maior orgulho de ter feito.Um das mais tocantes estórias que já vi numa animação.Sensacional!Faz rir, refletir, chorar, e chegar afinal à conclusão que nem tudo está perdido nesse mundão.

  5. Dani(ela) disse:

    quero ver, quero ver!

    já estava com vontade,pelas críticas lidas.

    oba, amanhã é quarta… hehe!

  6. LELLA disse:

    Que bom que também gostou desse filme!

    E Parabéns pelo texto!
    Beijo,

  7. Marcelo disse:

    Sarita, vc barbarizou neste post…tenho medo dessa sociedade que se distancia cada dia mais do contato fisico!

    bjs…eu tambem não tenho postado muito!

  8. belbia disse:

    O filme é realmente um espetáulo…. diferente e tocante….

  9. Vânia disse:

    O filme é maravilhoso: comovente e verdadeiro, sem ser piegas ou pesado. Vale a pena assistir!!

  10. Natalia Xavier disse:

    Assisti o longa ontem, e me pasmei com a linguagem da animação, mostrando de um jeito expressivo temas como solidão, amizade e a propria sociedade. Amei!

    Bjos

  11. Hannar Lorien disse:

    sim cada ponto q mencionaste no coment sobre o filme é valido e enriquecedor

    Mary &Max nos permite uma profunda e franca abordagem sobre tantos temas que são mascarados e amenizados com tolices em outras animações

    a animação dá seus recados na medida exata
    nos fazendo vibrar além de seus marrons e cinzas…!
    uma obra de arte com muito mérito!

    saudações poemistas pra ti
    desde o Rj
    Hannar.

  12. Kátia Borges (crear) disse:

    Sara,
    Passeando pelo FB de Inês Vieira, me deparei com o seu comentário e como temos um amigo em comum (Walterley), que já tinha me falado de vc e seu blog, fui ao mesmo. Me deparei, dentre outras coisas, com esta bela e inteligente (além de sensível) resenha sobre o filme Mary and Max. Já o vi, qdo em cartaz (Sala de arte) e o tenho em minha dvdteca. Certamente, é um filme que traz uma temática com a qual temos urgência em entrar em contato e refletir (ao menos). O lugar para as singularidades, para as diferenças e a aceitação (mais que tolerância)das mesmas. Essetrabalho de formiguinha, de semear tais idéias, tem que ser propagado. Parabéns, por isso!

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