Arquivo da categoria ‘arquitetura’

Enquanto a Arquitetura contemporânea premedita o futuro em Dubai, por aqui, crio um clima saudosista, trazendo de volta dois exemplares emblemáticos da Arquitetura Moderna. Certa vez falei aqui da Casa de Vidro da Lina Bo Bardi, projetada em 1950.
Hoje, inspirada neste artigo que é um dos mais visitados do blog, resolvi falar de mais duas casas.

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  • CASA DAS CANOAS

Projetada por Niemeyer em 1951 para própria moradia, é considerada um dos marcos da arquitetura moderna brasileira. Localiza-se no Rio de Janeiro, no bairro de São Conrado, atualmente está aberta à visitação pública.
Sua forma completamente orgânica e adaptada ao entorno traduz-se pela transparência e formas delgadas do seu partido que estabelece um diálogo constante com o exterior. A orientação adotada cria uma grande área sombreada que propositadadamente evitou o uso de cortinas nas áreas envidraçadas, permitindo assim que a mata “penetrasse” na casa sem trazer o desconforto da incidência direta do sol. A implantação foi planejada objetivando a menor interferência possível na topografia natural do terreno, de forma que as rochas que afloram do solo fossem aproveitadas na ambientação, ora adentrando, ora saindo da casa.
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  • CASA FARNSWORTH ou Casa de Vidro

Considerada um ícone da arquitetura moderna, foi projetada pelo brilhante arquiteto alemão Mies Van der Rohe, um dos principais mentores do Modernismo, partidário do minimalismo, tinha como premissa o bordão “Less is more“. Projeto contratado em 1946 pela médica americana Edith Farnsworth, de quem leva o nome . Localiza-se nos arredores de Chicago e foi idealizada para ser uma casa de fim de semana. Para além da arquitetura, a história da criação desta casa é recheada por fofocas duma suposta paixão mal resolvida entre arquiteto e cliente, que mais que um projeto, resultou num processo judicial entre as partes. O tempero amor x ódio parece ter sido a inspiração de um dos projetos mais emblemáticos do modernismo que inspirou mundo afora milhares de casas de vidro.
A casa que praticamente flutua, seguindo a tendência minimalista de Mies, é composta por duas placas de concreto – piso e teto – sustentadas por oito delgados pilares de aço, com todo fechamento externo composto por placas de vidro e internamente constituída por um único vão cujas únicas divisões são a parede de apoio aos armários da cozinha e as do sanitário, criando integração total com o exterior, apelo contemplativo extremamente necessário numa casa concebida para o lazer.
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A genialidade destes dois projetos, concebidos há mais de meio século, traduz-se na contemporaneidade do conceito: amplos vãos contínuos destituídos de divisão, usos integrados, limpeza das formas, além do fascinante imediato e completo contato com o exterior proporcionado pelas generosas cortinas de vidro.

Na casa de Niemeyer (ao meu ver mais contemporânea que a do Mies), houve maior preocupação com a questão ambiental, evitando desperdício energético e favorecendo a climatização natural na criação das grandes áreas sombreadas, enquanto comenta-se que a proprietária da casa de Chicago queixava-se muito do alto consumo de energia causado pelo uso de aquecedores.

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Não, estas fotos não registram o momento do desabamento, nem Oshama resolveu fazer mais um estrago sobrevoando o local; as torres estão ainda em construção, não estão caindo e graças aos avanços tecnológicos o cálculo estrutural, baseado num sistema estático, foi possível; uma proeza impossível há uns dez anos atrás.

Na verdade o conjunto assemelha-se a um gigantesco portal, que brinca com a gravidade num misto de desafio e despreocupação, e que nesse jogo se auto-sustenta através da ligação invertida na base e topo das duas torres inclinadas a 60º, desenvolvidas em planos reversos.

oma.jpgProjeto prá lá de arrojado do renomado Office for Metropolitan Architecture  (OMA), assinado pela dupla de arquitetos Ren Koolhaas e Ole Scheeren, sócios do OMA, sendo Ole o chefe do núcleo de projetos asiáticos. Trata-se da nova sede da Central  Chinesa de Televisão (CCTV), em Pequim, composta por duas torres inclinadas envidraçadas, de estrutura totalmente metálica, com 230 metros de altura (mais de 60 andares), totalizando uma   área construída em torno de 500.000 m².
Numa das torres localiza-se a sede propriamente dita, onde funcionará a produção e a administração, enquanto a outra agrega hotel, teatro, centro de exposições e visitações. O complexo, construído para abrigar jornalistas de todo o mundo, transmitir os Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e sediar eventos paralelos, deve ser inaugurado antes de agosto deste ano, data da abertura dos jogos. A obra está avaliada em torno de 750 milhões de dólares.

Enquanto isso mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo (claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas me dêem um segundinho para divagar), e para reduzir pelo menos 50% desta estatística num prazo de 7 anos, segundo a FAO, seria necessário um investimento(zinho) de 215 milhões de dólares.
O complexo funcionamento da nossa civilização, eu diria, é no mínimo curioso… Galga enormes avanços tecnológicos ao tempo que encontra-se mergulhada num gigantesco caos sócio-ambiental.

Enfim… divagações à parte, a obra está em fase final, vejam fotos de Fev/2008 e observem a escala humana na última imagem (clique para ampliar):

cctv1.jpg  cctv2.jpg  cctv3.jpg  cctv-noite.jpg  cctv-escalahumana.jpg           

(imagens: Reuters-nov.2007 / Tom Dutch )

Cactus acolhedor

Publicado: 06/12/2007 em arquitetura

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Ao ver estas imagens lembrei-me de Niemeyer comentando sobre os edífícios da Barra da Tijuca, no Rio, repletos de varandas que quando ocupadas são completamente fechadas deixando de lado a função para a qual foram concebidas. Aqui em Salvador isto também acontece, algumas vezes justificada pelo excesso de vento.

Mas para que afinal serviriam varandas em apartamentos? Não seriam o espaço que resgata um pouco do estilo de vida numa casa, permitindo contato maior com o exterior – sol, vento, chuva, plantas – nos colocando novamente em conexão com a sensação de liberdade que o morar em “caixas empilhadas” nos toma?

O Urban Cactus, edifício residencial projetado em Rotterdam pela UCX Architects, parte deste conceito – as varandas, no seu mais puro significado, determinam a aparência do edifício, utilizando o lúdico e o inusitado para transformar a paisagem e o estilo de viver nos centros urbanos.

Nem tudo é pedra e concreto nesta inusitada  selva urbana.
Estamos em Fukuoka, sul do Japão, numa das últimas áreas verdes da cidade, local aprazível à beira de um rio, sobrevoando uma construção prá lá de original – o Fukuoka Prefectural International Hall
que leva a assinatura do Escritório de Arquitetura  Emilio Ambasz & Associates, Inc.  sediado em NY.

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O projeto foi concebido partindo do desafio de criar um grande centro multi-uso com escritórios, lojas, estacionamentos, centro de convenções, museu e teatro, e ao mesmo tempo preservar o último espaço verde remanescente da cidade.
Das quatro fachadas, tres são absolutamente tradicionais, guarnecidas por esquadrias de vidro, enquanto a última é voltada para uma praça de grandes dimensões e concebida em níveis escalonados, dando, desta forma, continuidade à área verde da praça que vai subindo pela fachada como uma pujante mata.

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Assim  a espessa vegetação cria um ambiente bucólico e acolhedor, propiciando uma temperatura bastante amena e confortável no interior da edificação, tornando o consumo energético tremendamente reduzido. As águas da chuva são coletadas nos jardins por um sistema de drenagem que faz com que a hidratação do solo se faça naturalmente.

No centro da fachada uma torre envidraçada permite a iluminação natural completando desta forma a perfeita integração com o exterior e cumprindo eficientemente o desafio proposto pela administração municipal – a preservação e perfeita adequação ao ambiente. Uma prova literalmente concreta de como é possível construir, atender demandas do crescimento urbano e preservar.

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(fotos: colhidas daqui )

UPDATE:
Respondendo uma pergunta do Gustavo Gitti, muito pertinente por sinal. Aqui no Brasil já existem projetos que seguem a tendência da Arquitetura Verde, um exemplo é o Edifício Harmonia 57 em São Paulo na Vila Madalena.

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Residência em forma de vaso sanitário (imagem: modelo virtual) é criada pela WTO com objetivo de protestar e alertar contra a falta de sanitários para uma relevante parcela da população mundial. A World Toilet Organizacion é uma entidade não governamental que atua em ações no segmento de saneamento sustentável.

Estatísticas mundiais mostram que 2 bilhões de pessoas (número maior que a população brasileira) vivem sem instalações sanitárias em suas residências ou compartilham instalações que comprometem a saúde pública. Estima-se que apenas 30% da população mundial tem acesso a saneamento básico e utilizam esgotamento tratado de forma a não causar danos ambientais, sendo que os 70% restante despejam seus resíduos primários diretamente em rios e oceanos.

Num mundo em que a escassez de água potável é uma realidade, iniciativas como esta são muito bem vindas.

O local será aberto para exposição em novembro de 2007, na mesma época que aqui no Brasil (em Fortaleza) acontecerá a Conferência Internacional em Saneamento Sustentável.

(referência: G1)

Lina Bo Bardi, São Paulo, 1950

projeto de Lina para sua própria residência

fotos de Peter C. Sheier, Fernando Albuquerque e Marcelo Ferraz

A beleza ímpar desta construção se traduz neste diálogo equilibrado entre a obra arquitetônica e a natureza: a casa dentro da mata e vice-versa. Suavemente implantada no alto do vale ela parece flutuar sobre o cume da colina, através de uma extensa cortina de vidro permite uma ligação imediata com o exterior, internamente um vazio central preserva a árvore que impediria sua locação neste sítio, num convívio pacífico e integrado de duas linguagens.

Hoje a visão do vale que se vê diante da cortina de vidro não é mais a mesma, edificações surgiram na vizinhança, no bairro do Morumbi, durante as últimas décadas, entretanto o equilíbrio e o diálogo permanecem, a vegetação do entorno – conjunto exemplar de mata atlântica preservada – utilizada como filtro empresta ainda uma visão mágica para o observador que adentra a casa, ou no caso de quem a observa de fora e vê uma verde cortina tênue cercando-a numa espécie de mimetismo.

Leiam mais:
Sobre a arquiteta e a obra
Mais algumas fotos da Casa

Notícias 2006