Posts com Tag ‘amor’

Árido

Publicado: 22/07/2009 em poesia, reflexões
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quando ela chegou
com o aroma das flores
trouxe perfume e cor
à sua vidinha árida
de deserto sem oásis

agora sozinho se perguntava
contemplando ao redor
daquele campo desfolhado
se teria sido pura ilusão

tudo parecia lavado
por um detergente biodegradável
restaram apenas
vestígios de espuma
e algumas chances de semente

(foto: Manuel Sardinha)

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Mórbido

Publicado: 28/05/2009 em conto
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Marcou para encontrarem-se no cemitério, lugar melhor não haveria.

Paulo chegou diante do endereço e duvidou. Seria este mesmo o local do encontro? Olhou novamente para o papel em suas mãos e conferiu, rua, número… Sim, estava certo. Teve certo medo de entrar, já era fim de tarde, logo escureceria, mas foi em frente ainda vacilante. “Ao chegar dirija-se à estátua do anjo em mármore branco“, ele lia o papel e olhava em volta andando apressado.

O anjo de mármore olhava para o alto e suas mãos pareciam suplicar. Ela gostava daquela visão, sentia uma atração mórbida por cemitérios, adorava ver o sol morrer entre as capelas esculpidas rodeadas pelo silêncio absoluto. Sim, o lugar era perfeito para por fim àquele relacionamento com Paulo, tudo havia morrido, o amor, o desejo, a paixão… tudo. Imaginar os mortos lhe rondando lhe daria arrepios, ele era um covarde, ia morrer de medo quando tudo escurecesse e apenas sua lanterna iluminasse a imensa escuridão que se instalaria entre eles, além da dos sentidos que já tomara conta de tudo.

Depois de ouvir que tudo morrera e que não o queria mais, Paulo entrou numa profunda depressão, encostou-se ao túmulo e chorou, enquanto ela tomava um vinho tinto barato aos goles pelo gargalo e olhava a lua que nascia completamente amarela por trás do perfil recortado das cruzes. Pensava no quanto sentia-se leve, livre, tranquila; subiu no túmulo e abraçou-se ao anjo fazendo caras e bocas, rindo por dentro… Aquele silêncio sepulcral combinava com seus sentidos naquele momento, apenas os soluços de Paulo e seus repetidos “porquês?” interrompiam em alguns instantes a saborosa sensação de alívio que desfrutava. Cansada de ouvir seus lamentos – ele mais parecia uma carpideira – tapou os ouvidos e saiu perambulando pelas aléias. Paulo absorto em sua infelicidade nada ouvia, apenas sentiu o toque frio  sobre seu braço e assustado olhou ao redor. Uma moça linda, muito branca, de longa cabeleira negra olhava-lhe com compaixão querendo saber o que lhe acontecia. Conversaram um pouco ali junto ao anjo e ela confortava carinhosamente suas dores. Paulo a chamou para saírem dali, ela o olhou surpresa, mas ele não deu-lhe tempo de recusar e a levou pela mão… Ela era tão linda, meiga, delicada, suas feições tinham um quê de melancolia e seu jeito compassivo o encantava.

Levou-a a um bar, pediu algo para beber, mas a garota nada quis, enquanto isso um monólogo era iniciado. Paulo falava, falava, falava e ela o olhava com seus olhos tristes carregados de compaixão – tudo que precisava agora. O garçon o olhava de modo estranho e perguntou se tudo estava bem, ele assentiu, o garçon não parecia convencido e falou que ele deveria ir para casa. Paulo não entendia, olhou para a linda cabeleira negra que terminava sobre os braços muito, muito brancos. A moça acariciou suas mãos, “ela deve estar com frio“, ele pensou ao sentir seu toque. Tentou aquecê-la, tocando-a também, mirando-lhe as formas alvas, deslizando as mãos pelos seus braços magros… Foi quando percebeu os pulsos cortados e o sangue seco que manchava sua pele.

 

aaaaaaaaaaa-sorry

Encontrei esta foto outro dia aqui, o que me fez lembrar desta outra aqui. Tudo isto traz de volta a velha pergunta que não quer calar: o que está acontecendo com os homens?
Mais um domingo na praia e algumas mulheres encontram-se por acaso; idades e ocupações diversas e repete-se a pergunta como num côro. Descobrir a resposta já seria tema de pesquisa científica e não é isto que pretendo agora. O problema é que toda esta situação se intensifica quando colocamos mais um ingrediente no caldeirão: o número de mulheres heteros e solteiras é infinitamente maior que o de homens na mesma condição. Este superavit gera uma carência feminina coletiva, quase uma calamidade pública.

O que fazer? Existem algumas alternativas sendo praticadas, como importação de namorados ou os sites de relacionamento (nem sempre confiáveis) que praticam o livre comércio do “amor ao seu alcance”. A primeira alternativa, mostra-se depois de algum tempo muito onerosa, um amor via ponte aérea que se inviabiliza pela distância/ausência e acaba com os dias contados; já a segunda traz inúmeras frustrações, além da possibilidade de golpes e enganos. Em paralelo, ainda existe toda uma questão comportamental, ou seja, as relações hoje em dia se esbarram na crescente propagação do individualismo que dificulta o envolvimento verdadeiro entre as pessoas. Estamos cada dia mais blindados, mais exigentes, mais auto-centrados e infelizmente, mais carentes. Estamos num beco sem saída, onde entramos por livre e espontânea vontade, mas de onde não conseguimos sair, apesar da urgente necessidade.

E foi divagando sobre tudo isto e andando por aí que descobri dois textos ótimos, um do Marcelo Gleiser e outro do Inagaki, que tratam de amor, tecnologia e solidão. Uma mistura com cara de ficção científica, mas que diante de um cenário amoroso tão desanimador estampa-se como uma terrível solução – amor e sexo com robôs.
Será que estamos predestinadas à solidão e por conseguinte a forjarmos artificialmente companheiros sob encomenda? Ou será que esta carência/falta a que somos impostas atualmente não seria um aprendizado sobre o verdadeiro sentido de amar?


[ Já existe um livro sobre o tema, veja:  LOVE + SEX with ROBOTS ]

Irracional

Publicado: 15/01/2009 em romance
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noite-vitti-e-mastroianni

Gostava tanto dela! Tanto que permitia…
E permitia demais, além da conta.
Que conta?
A conta dos outros, que colocava nele ações que nem imaginava.
E como um bom macho, ele acatava.
E entornava o caldo… E estragava tudo.
Felizmente, apenas temporariamente.
Afinal os instintos ainda comandavam tudo … Dos estragos aos perdões.

o beijo – KLIMT

Ele queria segui-la …

… ela inventou um mar no seu rastro e sobre ele um barco. Ele navegou.

E ele quis enxergá-la …

… ela inventou a lua cheia clareando a noite da sua angústia.

Ele desejou não ser mais só …

… ela mostrou-lhe a dor de enfrentar os seus medos.

E enfim, ele quis ser feliz …

… ela então abriu-lhe os braços diante de um abismo e ele se lançou.

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ou Impossibilidades contra as quais o Amor se choca

 

O amor vai logo ali adiante, querendo saltar do peito, projetado num rosto na multidão; um discreto vislumbre farto de promessas e cercado de impossibilidades.

Como percebê-lo?
Não bastaria a coincidência de estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, talvez o átimo exato tenha sido ou ainda será. Instala-se uma espécie de frustração, algo cortante, o choque contra o fatídico, a crueldade do tempo que inexoravelmente continua sua saga ignorando esforços contrários.
Como alcançar, descobrir indícios d’um caminho revelado em instantâneos, quase invisíveis e roubado implacavelmente pelo corroer incessante das horas?
Mais voltas em torno do sol e de si mesmo, e mais do impossível se mostra, olhares que tentam cruzar-se. Vã tentativa de tatear às cegas na multidão à procura de um mínimo reflexo, uma resposta, uma promessa.

Perde-se um tempo absurdo seguindo pistas que talvez passem ao largo, disfarçadas, sem que nem suspeitemos a verdadeira direção. Caminhos paralelos, desconectados… Bastaria uma leve distração, um olhar perdido noutro sentido, atos sem premeditação, coincidências ou não; uma (pré)disposição ao inesperado, ao que não se vislumbra e que quase roça nossa percepção cansada e cega.