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Ano novo, velhos dias

Publicado: 04/01/2009 em crônica
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ovoquebrado

O ovo espatifou-se sobre a frigideira desfazendo o silêncio da cozinha e ela pensou na Cornualha; era certo que algum dia gostaria de estar lá, mesmo que a narrativa sobre Tristão e Isolda não a encantasse mais. Aquela alegoria romântica realmente a comovera em outros tempos, entretanto agora descobrira que o romantismo voltara a ter o status distante de um mero verbete de dicionário.

No entanto, havia um quê de sentimentalismo permeando tudo, talvez fosse “sensibilidade” a palavra que expressasse melhor a essência do que vinha experimentando há algum tempo, como agora lendo sobre a Cornualha, misturado aos aromas dissipados pela velha cozinha do cottage e à tão palpável brasilidade que a sua farofa de ovos fritos trouxeram.

Começava então o ano de 2009 dC.

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Era domingo, o carro parou para ser abastecido, ele sorriu largo ao pedir as chaves e começou a abastecer enquanto eu procurava o cartão para pagamento. Cartão passado, comprovante assinado, carro abastecido, recebo as chaves de suas mãos e o mesmo sorriso franco e feliz, daqueles verdadeiramente espontâneo. E assim, com o semblante de alguém satisfeito, de quem faz o que gosta e tem prazer, ele se despede com um desejo vibrante de bom dia.

Saindo me perguntei: “porque ele está tão feliz, se tivesse que trabalhar num feriadão eu estaria chateada, e se fosse um trabalho assim, ainda pior, tão mecânico e sem criatividade?” E me fui admirando o frentista e sua capacidade de ser feliz com tão pouco. Grifando aqui, que o ‘tão pouco’ é minha observação e pensando que julgamos demais, quando na verdade deveríamos praticar a aceitação que o mundo é plural e que nossa perplexidade diante da estranha (para nós) felicidade do outro, talvez traga implícita o quanto dificultamos a felicidade para nós mesmos.

Escrevendo isto, agora, numa tarde de domingo, sobre a cama, cercada de livros, cadernos e canetas, acompanhada desta descrença que quero expulsar, à espera de uma noite que traz latente uma promessa vaga de felicidade e torcendo para que eu me encontre aberta a ela; enquanto isso leio Clarice: “Não temos sido puros e ingênuos, para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia, possamos dizer ‘pelo menos não fui tolo’ e assim ficarmos perplexos antes de apagar a luz”.

E antes que este texto chegue ao fim e eu me cale, quero dizer que sim, eu desejo ser tola, desejo perceber os meandros onde a felicidade muitas vezes se esconde, auxiliada por nossos olhos que teimam em não vislumbrá-la, ou na verdade simplesmente por pura covardia.
E deixo aqui um desejo: que a gente (eu sobretudo) se liberte desta tola arrogância.

(imagem: arteemfoto)

“As flores de plástico não morrem”.

Para morrerem precisariam estar vivas, mas quando vivas nada se compara à sua harmonia sutil, permeada por discretos toques de imperfeição que são, na verdade, a chave do segredo da beleza natural. Pensava assim enquanto cantarolava a música, associando esta frase à artificialidade exagerada que se propaga na estética da mulher contemporânea. Chego mesmo a associar este processo à imagem de Michael Jackson, relembrando a metamorfose à qual ele se impôs.

As mulheres-michael são assim, abrem mão da naturalidade de sua beleza em troca das promessas tentadoras de perfeição da indústria da estética. Que fique claro que este posicionamento não vai de encontro a vaidade feminina, e sim contra seus excessos.

Tudo começa com um simples sutiã com enchimento – que os homens chamam de propaganda enganosa – até à completa transformação de cabelos, rostos e corpos. Como resultado vemos um exército de bonecas produzidas em série. Cabelos quimicamente tratados, algumas vezes à custa da própria saúde, são excessivamente alisados, perdendo completamente a naturalidade, o caimento e os cachos naturalmente tão belos. Hoje podem ser pretos, amanhã loiros, semana que vem ruivos, ou de repente prateados com mechas roxas. Mas só Deus sabe quanto tempo resistirão a excessiva quantidade de química.

Claro que é bacana poder mudar o visual de vez em quando, o problema é quando esta prática recai numa banalização e exageros sem tamanho.

A pele que pode ser clareada (método a laser) apenas para excluir manchas passa e ser exaustivamente “queimada” para promover uma aparência uniforme de um rosto de boneca de porcelana.
Ora, ora, mas que importa?! Este é caminho para finalmente ser linda e perfeita…

Continuemos.

Nesta interminável lista temos também a maquiagem definitiva. Porque não acordar todo dia com o mesmo rosto do dia anterior? Já economiza-se tempo, um momento que se evitará o enjôo de sempre encarar o mesmo rosto de manequim de loja diante do espelho. Olhem, quanta vantagem!

Em poucas semanas pode-se atingir a perfeição, veja como:

Depois de submeter-se a uma plástica corretiva, pode-se ter aquele nariz perfeito, empinadinho e aqueles olhos sensualmente amendoados e puxados. Sem contar que graças ao botox e ao silicone, aquele bocão enorme da Angelina Jolie pode ser seu. E agora, falta o quê? Ah sim, mais algumas próteses de silicone implantadas e seus seios não terão mais inveja dos peitões da Gisele Bündchen… já pensou?! Ainda está insatisfeita? Porque? Ah… não tem cintura. Ora minha amiga, isto também não é problema, faça uma lipo-escultura e a cinturinha fina dos seus sonhos aparece como num passe de mágica, enquanto aquela barriguinha incoveniente some junto, sem que você precise ficar se matando nos ferros da academia. E pronto, lá está você, quase uma top model! My God… ainda falta alguma coisa?! Ah é… a bunda, claro, como eu fui esquecer logo da preferência nacional… desculpa. Mas isto o silicone também resolve, outro implante e seu bundão by Scheila Carvalho vai fazer inveja a todas as suas amigas.

Tem mais uma coisa, mas chega aqui pertinho para eu falar no seu ouvido: dizem por aí, à boca pequena, que fora do Brasil já estão implantando silicone nos lábios (aqueles grandes e pequenos). É… isto mesmo, já pensou? Além de linda, gostosa!!

Pronto! Agora você já pode ser mais uma nesta legião de mulheres-michael. Bem vinda à vida das flores de plástico, mortais ainda, mas só enquanto não descobrem aquele pequeno segredo que ainda falta: o da imortalidade. Será que em breve seremos cyborgs?


(Sarah K > maio 2007) ………………………………………… (foto: desconheço o autor)

 

Casal de jovens namorados na sala do ap dele, no último domingo.

Ele, defronte da TV. Ela cheia de segundas, terceiras e sétimas intenções, chega na sala e diz.

-Amooooorrr?

-Huummm … – Sem tirar os olhos daTV

-Olha só – mostrando o bumbum e a calcinha nova – Viu só, bem daquele jeito que você gosta?!

-É mesmo, linda – Sem dar muita atenção e voltando a olhar a TV.

-Amoooorr… – Tomando a frente da TV.

-Pera… Vai, vai … Porraaa!! – tentando ver a TV através do corpo dela.

-Puxa amor, você não gostou não?

-Hein … Anhh … Não, não, é linda sim – sem olhar sequer para ela.

-Môzinhooo? – toda dengosa tentando beijá-lo.

-Juiz Fdp!!

-Que droga Luis Eduardo! – já sem paciência.

-Vai, vai, vai … vai Romário! Porra, baixinho fdp!!

-Humptfff!!

E assim, Carla Cristina e sua calcinha nova dirigem-se ao quarto derrotadas pelo baixinho e pela gorduchinha.

Coisas do futebol!

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[Mas qual é mesmo a preferência nacional masculina??? fiquei na dúvida … (rs)]

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(Sarah K > abril/2007)

planeta MÃE

Publicado: 01/08/2006 em crônica, imagéticas
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_________________________ foto: Saulo Kainuma

Parece que engoliu o mundo.

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No ventre desta mulher abrigam-se inúmeras chances de futuro e perpetuação, de renovação, desenvolvimento e comunhão. Mil possibilidades de formas, cores, tamanhos, raças …
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O mistério do código genético.
O milagre da divisão celular.
Nela conjugam-se ciência, arte, poesia e misticismo. Uma mulher grávida é sagrada, sublime e secreta. Carrega em si a real possibilidade da reinvenção da vida. Traz na sua essência o verdadeiro sentido de criação, nutrição e continuidade.
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Deste ventre redondo, como um planeta pulsante de água e carne, floresce a vida que habitará um outro planeta – esta enorme barriga de Terra e água onde seus pés se firmam agora.

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(Sarah K >agosto/2006)