Posts com Tag ‘eu-lírico’

O dia

Publicado: 13/03/2010 em poesia
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(foto: Gary J S)

De repente o tempo parou… estanque, calmo e tenso.
No dia branco, um céu de puro azul, asas velozes quebravam a monotonia.
Apenas um olho preto tudo via.
Tranças, sorrisos, a claridade da manhã estourada na roupa branca, nos dentes que riam.
Sonhar, agora poderia, ousar, cogitaria.
Olhou em volta, sentiu-se tão só… Pela frente uma promessa, um desafio.
Fechou os olhos feliz e jogou-se na morena manhã de coração aberto.

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Interseções

Publicado: 16/12/2009 em poesia
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Nas ruas descruzadas, vagavam
Viram-se sem saber
De pura imaginação, gostaram-se
Viveram alheios
Consumiram-se sem um fim
Perderam-se num vazio
Esqueceram-se enfim
Distantes agora
Procuram lembrar-se

Ano novo, velhos dias

Publicado: 04/01/2009 em crônica
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ovoquebrado

O ovo espatifou-se sobre a frigideira desfazendo o silêncio da cozinha e ela pensou na Cornualha; era certo que algum dia gostaria de estar lá, mesmo que a narrativa sobre Tristão e Isolda não a encantasse mais. Aquela alegoria romântica realmente a comovera em outros tempos, entretanto agora descobrira que o romantismo voltara a ter o status distante de um mero verbete de dicionário.

No entanto, havia um quê de sentimentalismo permeando tudo, talvez fosse “sensibilidade” a palavra que expressasse melhor a essência do que vinha experimentando há algum tempo, como agora lendo sobre a Cornualha, misturado aos aromas dissipados pela velha cozinha do cottage e à tão palpável brasilidade que a sua farofa de ovos fritos trouxeram.

Começava então o ano de 2009 dC.

sem idéias
meio ôca

existe o vazio?
penso no ôco do côco
um ninho de água
a água se espalha
se molda suavemente: adaptação
mata a sede e refresca

o côco é verde
e o verde?
esperança!
me sinto ecológica
abraço a natureza
esperançosa

a polpa é branca
penso na paz
me espalho
no verde
em paz

olha!
idéias brotaram
do vazio branco
e fertilizadas pelo verde
espalharam-se

[inspirado num comentário que fiz outro dia neste post no blog do Gustavo Gitti]

Não acredito que um dia repentinamente nos tornemos Mulher.
Existe uma mulher dentro de cada uma de nós, desde que nascemos e ela vai brotando, desabrochando, florescendo devagar e sempre…

Brinca de casinha, de boneca, de médico. Rouba as roupas, sapatos, enfeites e batons da mãe e se projeta lúdica, diante do espelho, curiosa, premeditando o futuro.

Se espanta diante das transformações que o tempo vai imprimindo no seu corpo, os pêlos, as protuberâncias, os fluxos. Perplexa diante da descoberta das paixões, do sexo, das próprias contradições; do ritmo confuso dos hormônios que por diversas vezes comandam implacavelmente, noutras os sentimentos à flor da pele que desaguam sem nenhum aviso prévio.

Dores e delícias, ventre sagrado, coração imenso, um campo farto de amores: filiais, fraternos, maternais, românticos… A garra e a sensibilidade sempre juntas, uma força sutil e pujante; a insegurança e o medo convivendo o tempo todo com confiança e força.

Fazemo-nos mulher aos poucos, às vezes lenta, noutras intensa, mas sempre permeada pela imperfeição, esse liame que deseja ser imperceptível, mas que no fundo é a causa mais forte da nossa (in)completude.

É assim, creio, que nos tornamos Mulher, dia após dia.

(foto: Yoyce Tenesson)

[blog-amigas, tem novas indicações na página SELOS, passem lá prá conferir!]

[Inspirado numa reflexão de Ítalo Calvino: “… quem nos dera fosse possível uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvora na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico…” ] 

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Manhã fria, céu cinzento, aqui no canteiro central da avenida o vento revira as folhas secas, volteando entre elas. Estou quase nua, desfolhando a olhos vistos. Do outro lado da pista, sobre a escada, haste nas mãos, sacola pendurada nos ombros, um daqueles fardados começa a montar mais um daqueles quebra-cabeça. É curioso contemplar, estática, as transformações aqui e ao meu redor. A cena montada aos poucos, quase num flash me pareceu um espelho, mais atenta percebo o contraste com a manhã enevoada. Colorida e ensolarada, ela vai insinuando-se aos poucos, o azul vai se espalhando… agora o céu vai dando lugar a algumas manchas esverdeadas que se misturam a tons de vermelho fogo, são flores que pontilham o verde, vibrantes como pequenas labaredas que lambem o céu.

Instantaneamente o tempo premedita outro tempo, fragmentos de um mesmo (ou outro?) espaço – presente, passado ou futuro num intervalo capturado, paralisado. O vento sopra mais forte, levando-me quase todas as folhas, agora restam poucas, parece o fim, os galhos desnudos resistem à sua fúria, guardando-se para mais além, ou logo ali para o azul e o calor expostos do outro lado. Uma outra estação, outra vida, um prenúncio, mas ainda me aguarda o frio do inverno.

Dali, raízes fixadas, diante da impossibilidade do movimento, da fuga, contraditoriamente, testemunho incontigentes transformações que se projetam regidas por ciclos sucedentes, e no entanto imutáveis, mas que trazem em si a semente da renovação que transcende qualquer circunstância.

[dedicado ao meu querido blog-amigo ‘Mariposo L que me disse que acha poesia triste… rs]

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narede.jpg

sábados gosto tem
chapéu de palha
preguiça que se espalha
na varanda
rede que vai-e-vem

a crista da onda
respingos na areia
pé descalço vagueia
tarde vagabunda
e você aí
preso na segunda

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** Amo sábados, têm gosto de férias, domingos são puro tédio… já nas segundas preciso de anestesia **

[BLOG-AMIGOS, tem indicações na página SELOS, passem lá e confiram]

Leia ouvindo ‘Alívio‘ (Cibelle Cavalli)