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Era domingo, o carro parou para ser abastecido, ele sorriu largo ao pedir as chaves e começou a abastecer enquanto eu procurava o cartão para pagamento. Cartão passado, comprovante assinado, carro abastecido, recebo as chaves de suas mãos e o mesmo sorriso franco e feliz, daqueles verdadeiramente espontâneo. E assim, com o semblante de alguém satisfeito, de quem faz o que gosta e tem prazer, ele se despede com um desejo vibrante de bom dia.

Saindo me perguntei: “porque ele está tão feliz, se tivesse que trabalhar num feriadão eu estaria chateada, e se fosse um trabalho assim, ainda pior, tão mecânico e sem criatividade?” E me fui admirando o frentista e sua capacidade de ser feliz com tão pouco. Grifando aqui, que o ‘tão pouco’ é minha observação e pensando que julgamos demais, quando na verdade deveríamos praticar a aceitação que o mundo é plural e que nossa perplexidade diante da estranha (para nós) felicidade do outro, talvez traga implícita o quanto dificultamos a felicidade para nós mesmos.

Escrevendo isto, agora, numa tarde de domingo, sobre a cama, cercada de livros, cadernos e canetas, acompanhada desta descrença que quero expulsar, à espera de uma noite que traz latente uma promessa vaga de felicidade e torcendo para que eu me encontre aberta a ela; enquanto isso leio Clarice: “Não temos sido puros e ingênuos, para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia, possamos dizer ‘pelo menos não fui tolo’ e assim ficarmos perplexos antes de apagar a luz”.

E antes que este texto chegue ao fim e eu me cale, quero dizer que sim, eu desejo ser tola, desejo perceber os meandros onde a felicidade muitas vezes se esconde, auxiliada por nossos olhos que teimam em não vislumbrá-la, ou na verdade simplesmente por pura covardia.
E deixo aqui um desejo: que a gente (eu sobretudo) se liberte desta tola arrogância.

(imagem: arteemfoto)

[inspirado num comentário que fiz outro dia neste post no blog do Gustavo Gitti]

Não acredito que um dia repentinamente nos tornemos Mulher.
Existe uma mulher dentro de cada uma de nós, desde que nascemos e ela vai brotando, desabrochando, florescendo devagar e sempre…

Brinca de casinha, de boneca, de médico. Rouba as roupas, sapatos, enfeites e batons da mãe e se projeta lúdica, diante do espelho, curiosa, premeditando o futuro.

Se espanta diante das transformações que o tempo vai imprimindo no seu corpo, os pêlos, as protuberâncias, os fluxos. Perplexa diante da descoberta das paixões, do sexo, das próprias contradições; do ritmo confuso dos hormônios que por diversas vezes comandam implacavelmente, noutras os sentimentos à flor da pele que desaguam sem nenhum aviso prévio.

Dores e delícias, ventre sagrado, coração imenso, um campo farto de amores: filiais, fraternos, maternais, românticos… A garra e a sensibilidade sempre juntas, uma força sutil e pujante; a insegurança e o medo convivendo o tempo todo com confiança e força.

Fazemo-nos mulher aos poucos, às vezes lenta, noutras intensa, mas sempre permeada pela imperfeição, esse liame que deseja ser imperceptível, mas que no fundo é a causa mais forte da nossa (in)completude.

É assim, creio, que nos tornamos Mulher, dia após dia.

(foto: Yoyce Tenesson)

[blog-amigas, tem novas indicações na página SELOS, passem lá prá conferir!]

[Inspirado numa reflexão de Ítalo Calvino: “… quem nos dera fosse possível uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvora na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico…” ] 

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Manhã fria, céu cinzento, aqui no canteiro central da avenida o vento revira as folhas secas, volteando entre elas. Estou quase nua, desfolhando a olhos vistos. Do outro lado da pista, sobre a escada, haste nas mãos, sacola pendurada nos ombros, um daqueles fardados começa a montar mais um daqueles quebra-cabeça. É curioso contemplar, estática, as transformações aqui e ao meu redor. A cena montada aos poucos, quase num flash me pareceu um espelho, mais atenta percebo o contraste com a manhã enevoada. Colorida e ensolarada, ela vai insinuando-se aos poucos, o azul vai se espalhando… agora o céu vai dando lugar a algumas manchas esverdeadas que se misturam a tons de vermelho fogo, são flores que pontilham o verde, vibrantes como pequenas labaredas que lambem o céu.

Instantaneamente o tempo premedita outro tempo, fragmentos de um mesmo (ou outro?) espaço – presente, passado ou futuro num intervalo capturado, paralisado. O vento sopra mais forte, levando-me quase todas as folhas, agora restam poucas, parece o fim, os galhos desnudos resistem à sua fúria, guardando-se para mais além, ou logo ali para o azul e o calor expostos do outro lado. Uma outra estação, outra vida, um prenúncio, mas ainda me aguarda o frio do inverno.

Dali, raízes fixadas, diante da impossibilidade do movimento, da fuga, contraditoriamente, testemunho incontigentes transformações que se projetam regidas por ciclos sucedentes, e no entanto imutáveis, mas que trazem em si a semente da renovação que transcende qualquer circunstância.